“Uma mulher mais autoritária e assertiva é vista como mandona, enquanto um homem com as mesmas características é admirado e visto como líder natural.”
Segundo Mara, quando as mulheres são promovidas, chegam ao cargo com uma remuneração bem inferior à dos homens e isso já influencia a autoestima. “O argumento para essa diferença não é falta de preparo. Elas são mais qualificadas que os homens em nível acadêmico”, diz.
No Brasil, o percentual de empresas com pelo menos uma mulher em cargos de liderança é de 93% em 2019, um salto considerável em relação aos 61% no ano passado, segundo a última edição da International Business Report (IBR) – Women in Business 2019, pesquisa da Grant Thornton com mais de 4,5 mil empresários no mundo.
Quando se trata de cargos de liderança, as mulheres ocupam 25% deles dentro dessas empresas. Quanto mais alta a posição, menor a participação das mulheres. Para os cargos do mais alto nível nas corporações, apenas 15% das empresas possuem uma mulher no topo, segundo a Grant Thornton.
Para Mara, da LHH, apesar da evolução da liderança feminina, ela ainda caminha a passos curtos. “O número de mulheres na liderança vem crescendo de maneira tão lenta que às vezes passam-se muitos anos para mexer um ponto percentual”, diz.
‘Lidar com homens é diferente’
A empresária Liana Pandin, de 33 anos, é líder de uma equipe de nove pessoas no Ateliê de Calças, das quais sete são mulheres e dois, homens. Ela sente que seu relacionamento com as funcionárias é diferente do que tem com os empregados do sexo masculino.
Nos encontros de feedback, que ela promove a cada três meses, Liana desenvolveu uma abordagem própria para os homens.
“A forma de lidar com os homens é diferente. Enquanto as mulheres têm uma visão mais multitarefas, eles encaram as coisas de forma mais pontual, e aprendi a lidar com isso”, diz.
A empresária diz que nunca teve dificuldade na carreira por ser mulher, mesmo antes de abrir seu negócio, quando trabalhou no mercado financeiro, em ambientes prioritariamente masculinos, mas personalizou a abordagem para conquistar a confiança dos subordinados.
“Hoje eu vejo a importância de minha primeira chefe ter sido uma mulher, porque acho que fez diferença para mim. Mas sempre fui desafiada como pessoa, tanto por homens quanto mulheres.”
Segundo a diretora de Inovação, Marketing e Novos Negócios da Grant Thornton, Carolina de Oliveira, uma pesquisa da empresa mostra que o exemplo feminino é importante para incentivar a ascensão de mais mulheres a cargos de chefia.
“Mulheres que possuem outras mulheres como chefes têm mais chances de avançar na carreira. Se eu sou uma analista, a chance de ser promovida a gerente sobe de 32% para 61% se a liderança é feminina”, explica.
Os especialistas em carreira indicam que a autoconfiança das próprias mulheres no ambiente profissional, geralmente mais baixa que a dos homens, também acaba se tornando um empecilho para a ascensão de muitas delas.
Segundo Mara, da LHH, há uma quantidade considerável de mulheres com ambição de liderança, mesmo que demonstrem menos que os homens. “Isso tem que ser desenvolvido na relação das próprias mulheres com elas mesmas.”
Para a fundadora da consultoria de carreira Cia de Talentos, Sofia Esteves, o desconforto com a liderança feminina pode ser reforçado pela própria insegurança da líder em ser rejeitada pelo fato de ser mulher. “Se ela tem empatia e sabe quebrar resistências, vai conseguir romper essa barreira.”
A participação das mulheres em processos de recrutamento e seleção para a alta direção voltou a subir em 2018, após dois anos de queda, de acordo com uma pesquisa da Page Executive. Houve 21% de participação feminina nessas dinâmicas, ante 14% em 2017 e 13% em 2016, mostrou o estudo.
Para Carolina, a maior presença de debates sobre equidade de gênero nas empresas e questões salariais tem gerado resultados e tem aumentado a consciência da importância de mais mulheres em cargos mais altos.
Carolina, da Grant Thornton, recomenda que as mulheres que aspiram evoluir de carreira em empresas com culturas não muito inclusivas devem criar redes internas com outras mulheres para superar essa resistência.
“É muito importante que as mulheres se apoiem e deixem claros seus objetivos, suas aspirações de liderança”, diz.
Sofia Esteves, da Cia de Talentos, diz que a mudança na forma como a liderança é vista nas empresas hoje favorece as mulheres bem mais que antes.
“Diferente do passado, quando a liderança era respeitada pelo crachá de líder ou pelo conhecimento técnico, hoje a liderança só acontece quando se tem admiração, quando se cuida das pessoas e escuta seus colaboradores. O perfil de liderança mudou muito, mas ainda existem resistências”, diz Sofia.
Segundo ela, hoje os homens passaram a ser mais cobrados por características como sensibilidade, empatia e leitura organizacional, habilidades mais atribuídas ao estereótipo feminino, motivo pelo qual também aumentou o número de mulheres em setores tipicamente masculinos, como bancos e ambientes fabris.
“Hoje o homem está sendo muito mais exigido a mudar seu comportamento e ter características mais atribuídas às mulheres”, afirma.
Para Sofia, as mulheres que se sentiram discriminadas por seu gênero não devem escolher o caminho da vitimização. “As mulheres que se tornaram líderes geralmente nem percebem que sofreram discriminação. Elas são proativas e não têm medo de se expor e acabam avançando”, diz.
Veja abaixo os comportamentos que distinguem mulheres bem sucedidas na carreira, segundo pesquisa da LHH:
- Ter um plano de carreira compartilhado: objetivos de carreira mais claros;
- Auto-promoção: admitir suas qualidades e conquistas;
- Influenciar níveis superiores: visibilidade em projetos e networking;
- Delegar trabalho: distribuir funções para iniciativas estratégicas;
- Acreditar que não há barreiras: sem barreiras para atrapalhar o progresso.